Recentemente
li um discurso em que se dizia: “Governos sem moedas próprias são governos
desarmados”. O texto é do cientista político Valter Duarte Ferreira Filho, em texto de
conferência proferida recentemente na UFRJ . Por essa razão, prossegue, “o
Fundo Monetário Internacional e a União Européia propõem-se a ‘invadir’ a Grécia,
e também Portugal, Espanha e Irlanda”, “com seus empréstimos em dólares e
euros, cobrando medidas de austeridade e abertura para outros invasores
externos: os comandantes do capitalismo internacional”.
Para
Ferreira Filho, enquanto os países ora em dificuldades continuarem a acreditar
no sistema de mercado e no que ele chama de “representação despolitizada do
dinheiro” - crença que, segundo ele, explicaria “tamanha imprudência política
ao abrir mão da soberania monetária” – permanecerão sujeitos à “manipulação
daqueles que podem e melhor sabem fazer uso do dinheiro, praticando o
maquiavelismo monetário”.
Os que sabem
fazer melhor uso do dinheiro são economistas, gestores, dirigentes de
instituições multilaterais e líderes políticos, entre outros, que reconhecem a
importância das regras de mercado, da qual a eficiência é um princípio
inerente, no processo de desenvolvimento, ao invés de submeter às leis da
ciência econômica (em especial, a da oferta e da procura) aos objetivos
políticos, nem sempre límpidos e louváveis.
Valter
Duarte Ferreira Filho deixou de considerar em sua análise, que tem 23 páginas e
na qual citou ou fez alusão a 24 autores – um mix que vai de Stuart Mill a
Marx; de Hobbes e Locke a Weber; de Keynes e Hayek – que uma economia é um
sistema demasiadamente complexo para ser planejado por uma instituição central
e deve evoluir espontaneamente, por meio do livre mercado.
E quem disse
isso foi justamente Friedrich Hayek, Nobel de Economia que escreveu, entre
outros, “A Desestatização do Dinheiro”, obra (curiosamente citada por Ferreira
Filho) na qual revela sua preocupação com o uso político – ou seria
“politiqueiro”? – da moeda e propõe que as emissões sejam feitas por organismos
independentes dos governos.
Mas Ferreira
Filho desconsiderou aspectos ainda mais importantes. O principal deles é que os
países da União Européia buscam ser, de fato, uma união plena, embora
paulatina, e não apenas um conjunto de “soberanias” associadas, como ainda
ocorre hoje. Isso está nas entrelinhas. Uma “soberania universal”, aliás,
parece ser o caminho inexorável da própria humanidade, em futuro mais distante.
Outra
omissão do autor: se os europeus pretendem manter-se unidos por meio de uma
moeda forte, cujas vantagens são óbvias, precisam compartilhar, também, os seus
pressupostos. Uma conduta fiscal responsável – redução de gastos e gestão
eficiente dos recursos públicos – é o principal deles. Foi o que, entre outros
fatores, tornou a Alemanha a maior economia da Europa e uma das quatro maiores
do mundo, após sair devastada – econômica e moralmente – da Segunda Guerra.
Os países em
crise, em especial Grécia, Espanha, Irlanda, Portugal, e agora também Itália,
têm o direito soberano de não seguir o modelo. Mas, nesse caso, não terão mais
como compartilhar um euro forte. A crise deixou claro que a união monetária
depende de uma união fiscal, do reconhecimento a parâmetros fiscais mais claros
e rígidos. A alternativa é a desestruturação da Zona do Euro e,
consequentemente, o gradual enfraquecimento da União Européia. É legitimo que
Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda possam querer esse desfecho. Mas é mesmo
esse desfecho que querem? Claro que não. Não estão na UE e no euro por
imposição, mas porque é vantajoso.
A origem da
crise, ao contrário do que o texto de Ferreira Filho nos induzir a pensar, está
justamente na falta de compromisso fiscal desses países cujas economias agora
precisam ser resgatadas, sob o risco de a Europa mergulhar numa crise mais
aguda e prolongada, com reflexos negativos em todo o mundo. Ocorre que, para
colocar dinheiro na mão desses governos, que muitas vezes demonstraram desprezo
pelas regras de mercado, gastando mais do que podiam, é preciso lhes impor
certas condições. Ou o mundo deve assinar um cheque em branco à
irresponsabilidade?
Eis uma das
questões que Ferreira Filho não procurou responder. Talvez porque não tenha
entendido que o mercado não é uma ficção ideológica, fruto de um gênio
maniqueísta ou maquiavélico, como prefere. O mercado é apenas uma expressão
genuína das relações econômicas, inerentes ao homem. Seu surgimento data do
início da história da humanidade. E continuará a existir mesmo que a ideologia
tente decretar o seu fim.
A crise européia
tem uma lição a nos dar. Mas é preciso franqueza intelectual para aprendê-la.

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